Alimentação por sonda: um suporte temporário para uma cura definitiva

Dr Stefano Fiuza linfoma de hodgkin sintomas​
Quando o ato reflexo de engolir — algo que repetimos cerca de 600 a 2.000 vezes por dia sem notar — se torna um desafio mecânico ou uma fonte de dor excruciante, a medicina precisa intervir na base da sobrevivência: a nutrição. Na cirurgia de cabeça e pescoço, a indicação de uma via alternativa de alimentação, seja por sonda nasoenteral ou gastrostomia, frequentemente carrega um estigma de “fim de linha” para o paciente e seus familiares. No entanto, tecnicamente, enxergamos esse recurso de forma oposta: ele é o alicerce que permite ao organismo suportar a agressividade do tratamento oncológico e a complexidade da cicatrização tecidual. A desnutrição é uma das complicações mais severas em pacientes com carcinomas epidermoides de via aerodigestiva superior.

Um tumor na base da língua ou na hipofaringe não apenas obstrui a passagem do bolo alimentar, mas induz um estado catabólico intenso. Sem o aporte calórico e proteico adequado, o sistema imunológico falha, a força muscular respiratória declina e a toxicidade da radioterapia se torna insuportável, levando à interrupção do protocolo — o que reduz drasticamente as chances de cura. As vias de acesso: Nasoenteral vs. Gastrostomia (PEG) A escolha da interface depende do tempo estimado de uso e da condição anatômica do paciente.

Sonda Nasoenteral (SNE): É um cateter de poliuretano ou silicone, extremamente fino e flexível, introduzido pela narina até o duodeno. É a escolha para curto prazo (até 4 ou 6 semanas). Sua instalação é rápida, mas pode causar desconforto nasal e refluxo se não for bem posicionada. Gastrostomia Endoscópica Percutânea (PEG): Quando antecipamos que a reabilitação da deglutição levará meses — comum em cirurgias de ressecção amplas com reconstrução por retalhos microcirúrgicos — a gastrostomia é superior. O tubo é inserido diretamente no estômago através da parede abdominal. Isso libera a face do paciente, evita irritações na mucosa esofágica e permite uma vida social mais próxima da normalidade, já que o dispositivo fica oculto sob a roupa. O cenário clínico da radioterapia Considere um paciente em tratamento para um tumor de laringe avançado.

Por volta da quarta ou quinta semana de radioterapia, a mucosite (inflamação das membranas mucosas) atinge seu pico. A dor é comparável a ter brasas na garganta. Nesse estágio, a disfagia (dificuldade de engolir) não é apenas funcional, mas antálgica. A sonda entra aqui como um suporte estratégico. Ao garantir o balanço nitrogenado positivo através de dietas enterais industrializadas, mantemos a integridade da pele para cicatrizar as queimaduras actínicas e evitamos a desidratação, que é uma causa frequente de internações de emergência.

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